Os podcasts ultrapassaram a rádio AM/GM como o formato de audio falado mais ouvido nos EUA. A Netflix entrou no mercado com contratos de exclusividade. E o Youtube perdeu audiência pela primeira vez neste segmento. O que é que isto tem a ver com as telecomunicações em Angola? Mais do que poderia pensar.

O facto: os podcasts venceram a rádio
Um estudo recente da Edison Research revelou um marco histórico: nos EUA, os podcasts são agora o formato de áudio falado — excluindo a música — mais consumido, à frente da rádio AM/FM. O crescimento acelerou-se desde 2021, com a percentagem de ouvintes a saltar de 20% a 40% no último ano.
O Youtube foi um dos grandes protagonistas desta ascensão. Só em 2025, foram 700 milhões de horas de podcasts visualizadas por mês em televisões — um aumento de 300 milhões de horas face a 2024. O podcast deixou de ser algo que se ouve a caminho de trabalho: tornou-se conteúdo de ecrã, consumido no sofá, em família, como se fosse televisão.
A Ofensiva da Netflix
Até Janeiro de 2026, o Spotify era o principal rival do Youtube neste segmento. Depois a Netflix entrou em campo — e entrou com força. A gigante do streaming assinou contratos de exclusividade com vários programas populares, que deixaram de poder publicar episódios completos ou excertos noutras plataformas incluindo o Youtube.
Em troca, os criadores recebem a garantia financeira, acesso ao marketing da Netflix e a exposição potencial a 300 milhões de subscritores. Os primeiros resultados já se fazem sentir — mas não necessariamente a favor da Netflix.
| Podcast | Antes (YouTube) | Depois (Exclusivo Netflix) |
| Spittin’ Chiclets | Crescimento normal de subscritores | Crescimento reduzido em 50% |
| 3& Out (K. Middlekauff) | ≈ 10.000 novos subscritores/mês | Apenas 1.700 novos/mês (-83%) |
A reacção do público também não tem sido trivial: muitos fãs afirmam que não migrarão para a Netflix, precisamente porque descobriram esses podcasts graças ao Youtube. Há aqui uma lição fundamental sobre distribuição versus exclusividade — e é uma lição que transcende os podcasts.
O Dilema: Exclusividade ou Alcance?
O que vale mais — a segurança financeira e o marketing de uma grande plataforma, ou o alcance e a descoberta orgânica de uma plataforma aberta? Esta pergunta parecia resolvida: O próprio Spotify, depois de investir centenas de milhões em contratos de exclusividade com criadores como Joe Rogan, ecoou e reavaliou o modelo. A exclusividade limitada o crescimento da audiência.
Agora, a Netflix repete a aposta — com uma diferença: traz 300 milhões de subscritores e a força de uma marca de entretenimento que já faz parte do quotidiano de milhões de pessoas. A questão é se a base compensa a perda de visibilidade no Youtube, que continua a ser o maior motor de descoberta e conteúdo do mundo.
“As plataformas de streaming têm controlado cada vez mais o acesso aos conteúdos para gerar exclusividade e retenção — um movimento que parecia ter abrandado, mas que a Netflix reavivou”
O que significa para nós?
- A Batalha pela atenção é a batalha pela infra-estrutura – Cada hora de podcast vista numa televisão é uma hora de tráfego de dados na rede. Em Angola, onde 94,9% das ligações móveis são classificadas como banda larga, o crescimento do consumo de vídeo e áudio em streaming pressiona directamente as capacidades das redes. Os nossos clientes B2B — Bancos, petrolíferas, instituições — estão a oferecer serviços digitais aos seus próprios clientes. Mais streaming significa mais procura de conectividade fiável.
- O dilema exclusividade vs. alcance aplica-se às telecoms. Será que MSTelcom também enfrenta escolhas semelhantes: apostar em soluções proprietárias e exclusivas, ou em plataformas abertas que maximizam o alcance? O datacenter ASA deve ser um “jardim fechado” ou um ecossistema aberto? A experiência da Netflix com podcasts — e a Spotify antes dela — sugere que a exclusividade tem custos de descoberta que nem sempre são óbvios.
- O conteúdo áudio é uma oportunidade de comunicação interna. Se os podcasts estão a ultrapassar a rádio nos EUA, porque não explorar o formato dentro da nossa organização? Um podcast interno de 10 minutos — mensal, com entrevistas a diferentes colegas de diferentes áreas — seria um complemento natural ao Jornal Cosmos. O formato é acessível, escalável e pode ser ouvido em movimento (deslocação). Num país onde as distâncias são grandes e nem todos têm tempo para ler, o áudio pode ser o canal que falta.
O Ponto Essencial
O futuro dos podcasts será definido pelo equilíbrio entre alcance, modelização e envolvimento da audiência. Para os criadores, cada escolha de exclusividade é um teste estratégico. Para as plataformas, cada contrato é uma aposta no comportamento do consumidor.
Para a nossa organização, a lição é outra: o conteúdo é cada vez mais o motor que puxa a infra-estrutura. Quem controla a distribuição do conteúdo influencia a procura por conectividade. E quem oferece conectividade precisa de compreender estas dinâmicas para antecipar, e não apenas reagir.

