É interessante pensar como era o mundo na época dos fundadores dos EUA. O ano de 1776 não foi apenas um ano revolucionário por ter dado origem aos Estados Unidos; marcou também o início da Primeira Revolução Industrial com a invenção da máquina a vapor por James Watt e o nascimento do capitalismo moderno com a publicação “A Riqueza das Nações” por Adam Smith.


Muitos dos debates que temos hoje sobre economia, indústria e política seriam incompreensíveis em 1775. Para as pessoas que viviam naquela época, o feudalismo, o mercantilismo e o direito divino dos reis pareciam ser a ordem natural do mundo. Nunca tinham conhecido outra realidade. Mas depois de 1776, tudo mudaria.

Parece que estamos a passar por uma transição semelhante nos dias de hoje. Ao ordem neoliberal está sob ataque, enquanto tecnologias como a inteligência artificial, a computação quântica e a biologia sintética estão a criar paradigmas completamente novos. Tal como os fundadores há 250 anos, a parte mais difícil não é inventar o futuro, mas sim deixar o passado para trás. A história mostra-nos que essa luta é inevitável.


O que a Geometria de Euclides Nunca Resolveu

A geometria básica que aprendemos na escola, conhecida como geometria euclidiana, baseia-se em axiomas retirados da experiência quotidiana, como o princípio de que duas linhas paralelas nunca se intersectam. Durante milhares de anos, os matemáticos construíram provas com base nesses axiomas para criar novos conhecimentos, como calcular a altura de um objecto. Sem esses inputs, a nossa capacidade de moldar o mundo físico seria insignificante.

Mas e se uma dessas suposições fundamentais estivesse errada? E se o próprio espaço pudesse ser curvado, fazendo com que linhas que aparentam ser paralelas eventualmente se cruzem? No século XIX, alguns dos matemáticos mais celebrados do mundo, como Gauss, Lbachevsky, Bolay e Reiman, começaram a questionar essas ideias e criaram novas geométricas baseadas em espaços não euclidianos.

Na época, essas teorias eram vistas como puramente teóricas e sem utilidade prática. O universo, tal como o experienciamos, não parece curvar-se de forma significativa, razão pela qual a polícia nos pede para andar em linha recta se suspeitar que estamos embriagados. Apesar do prestígio dos seus proponentes, a ideia da geometria não euclidiana foi amplamente ignorada e até ridicularizada.

No entanto, quando Albert Einstein começou a falar sobre o funcionamento da gravidade, começou a suspeitar que o universo, de facto, se curvava a grandes distâncias. Para que a sua teoria da relatividade geral funcionasse, teve de abandonar o pensamento euclidiano antigo e abraçar novos conceitos matemáticos. Sem essas ferramentas críticas, teria ficado irremediavelmente bloqueado.

Hoje, utilizamos espaços não euclidianos todos os dias, porque os nossos GPS precisam de funcionar a distâncias suficientemente grandes para que a curvatura do espaço se torne relevante. Usam as equações de Einstein para corrigir essas diferenças. Assim, sempre que utilizamos o GPS para nos deslocamos de um lugar para o outro, ao chegarmos ao destino, estamos, na prática, a provar a teoria.


Como um Austríaco de 25 Anos Revelou a Falha na Lógica de Aristóteles

Em termos de longevidade e impacto, apenas a lógica de Aristóteles rivaliza com a geometria de Euclides, No núcleo do sistema de Aristóteles está o silogismo: um argumento construído a partir de proposições compostas por um sujeito e um predicado. Se as proposições do silogismo forem verdadeiras, então o argumento tem de ser verdadeiro. Durante mais de 2.000 anos, esta ideia – de que o raciocínio correcto garante verdade – serviu como um princípio fundamental do pensamento ocidental.

Contudo, tal como aconteceu com a geometria, começaram a surgir fissuras. Inicialmente, os lógicos notaram pequenas falhas, como o paradoxo de Russell, que surgiu com conjuntos que são membros de si mesmos. Uma forma mais simples, conhecida como o paradoxo do barbeiro, afirma que o barbeiro barbeia todos os homens da cidade que não se barbeiam a si próprios (então, quem barbeia o barbeiro?)

No início, estes pareciam ser anomalias estranhas, pequenas excepções às regras que podiam ser facilmente explicadas. No entanto, quanto mais os estudiosos tentavam fechar as lacunas, mais problemas surgiam, levando a uma crise fundamental. Esta seria resolvida quando um jovem lógico chamado Kurt Godel publicou os seus teoremas mostrando que o sonho de um sistema lógico perfeitamente completo era fatalmente falhado.

Num estranho desdobramento, outro jovem matemático, Alan Turing, baseou-se no trabalho de Godel para criar uma máquina imaginária que tornaria os computadores digitais possíveis. Em outras palavras, para que os engenheiros de Silicon Valley possam criar mundos computáveis online, precisam de usar construídas com base na premissa de que sistemas perfeitamente lógicos são inerentemente impraticáveis.

Hoje, os computadores tornaram-se uma parte tão integral da vida quotidiana que é difícil lembrar de um tempo em que não existiam, e devemos isso aos limites da lógica.


A Outra Ideia de Hipócrates, E porque Tinha de Ser Abandonada

Antes de a teoria germinal das doenças se estabelecer na medicina, predominava a teoria do miasma (a noção de que o ar contaminado causava doenças). Do ponto de vista prático, fazia sentido. Os agentes patogénicos tendem a prosperar em ambientes com matéria orgânica em decomposição que emite maus cheiros. Assim, evitar essas áreas promovia uma melhor saúde.

Este paradigma básico começou a desmoronar-se com uma série de incidentes. Primeiro, um jovem médico chamado Ignaz Semmelweis mostrou que os médicos podiam prevenir infecções lavando as mãos, sugerindo que algo além do ar transmitia as doenças. Mais tarde, John Snow conseguiu rastrear a origem de uma epidemia de uma cólera a única bomba de água.

Como seria de esperar, estas descobertas foram inicialmente descartadas. Semmelweis não conseguiu apresentar os seus dados de forma convincente e não era um defensor eficaz do seu trabalho. O trabalho de John Snow era estatístico, baseado em co-relação em vez de casualidade.
Um estatístico proeminente, William Farr, ofereceu explicações alternativas que preservavam a visão predominante.

Ainda assim, à medida que as dúvidas aumentavam, mais cientistas procuravam respostas. O trabalho de Robert Koch, Joseph Lister e Louis Pasteur levou à teoria germinal. Mais tarde Alexander Fleming, Howard Florey e Ernst Chain seriam pioneiros no desenvolvimento de antibióticos na década de 1940. Isso abriu portas para investimentos maciços em investigação, criando a medicina moderna.

Hoje, ultrapassámos a teoria germinal das doenças, e até os leigos compreendem o conceito de patogénicos, como bactérias e vírus. A esperança média de vida quase duplicou desde os tempos de Smmelweis.


Construindo um Novo Caminho parar o Futuro

Em Novembro de 1989, dois eventos marcantes mudaram o curso da história mundial. A queda do Muro de Berlim pôs fim à Guerra Fria e abriu mercados por todo o mundo. Nesse mesmo mês, Tim Berners-Lee criou a World Wide Web, iniciando uma nova era tecnológica de computação em rede.

Parecia, como Francis Fukuyama escreveu famosamente, o fim da história. O conflito entre comunismo e capitalismo parecia ter terminado. Apenas um modelo permanecia. Mas, como Fukuyama também notou – e como observado em Moscovo – o impulso humano para afirmar a identidade continuava. não estávamos a testemunhar um fim, mas o início de um grande realinhamento, no qual a ordem neoliberal, o globalismo, o Conselho de Washington e a tecnologia digital prevaleceriam.

Desde o início, contudo, houve profundas inquietações, Muitos países em desenvolvimento, pressionados pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial a adoptar políticas que nunca seriam aceites em nações mais ricas, ressentiram-se. E mesmo em economias avançadas, muitos sentiram-se deixados para trás, enquanto a globalização e a deslocalização esvaziavam as suas vidas económicas.

Hoje, intelectuais da “nova direita” como Patrick Deneen, argumentam que o liberalismo enfraqueceu aspectos fundamentais da sociedade, como a família, a religião e a comunidade. Outros, como Curtis Yarvin, defendem que a democracia em si é ineficiente, e que o que precisamos são soberanos ao estilo de CEOs tecnológicos. Entretanto, Ezra Klein e Derk Thompson apelam a uma agenda de abundância que se concentre mais em construir o que precisamos do que evitar o que não queremos.

Agora, tal como os Pais Fundadores da América, somos encarregados de encontrar um caminho para o futuro, quando este parece frustrantemente incerto. Tal como as gerações que vieram antes de nós, teremos de lutar com os novos paradigmas possibilitados por avanços tecnológicos.
No entanto, também como os outros que vieram antes de nós, o nosso maior desafio não é a falta de possibilidades, mas a falta de consenso.

Tendemos a substituir questões sobre o tipo de futuro que queremos por questões sobre tecnologia. Mas, como Martin Heidegger explicou há muito tempo, não podemos construir para o mundo até sabermos como queremos viver nele.

Artigo por: Greg Satell  é um autor e palestrante especializado em inovação e transformação digital. 

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