
Comecei sem aviso. Numa terça-feira normal, durante uma reunião de equipa por Teams, o colega d nome Pedro (um nome fictício), partilhou o ecrã para mostrar os números da semana anterior. Até aí, normal. Depois abriu uma nova janela. “Este é o meu assistente”, disse, com o tom de quem apresenta um estagiário tímido. Na janela estava um chat de IA. O Pedro tinha-lhe pedido para analisar os dados de tráfego da rede na madrugada anterior, cruzar com o histórico de incidentes e sugerir três acções prioritárias.
A análise estava feita. Formatada. Com gráficos.
Houve um silêncio. Não daqueles constrangedores — mas daqueles em que se ouve quase o ruído de pensamentos. A Cláudia (nome fictício), que normalmente faz essa análise manualmente em duas horas, olhava apara o ecrã com uma expressão que oscilava entre a curiosidade e algo mais difícil de nomear.
Nos dias seguintes, a conversa não parou. Não na reunião — no corredor. Na copa. No grupo de Whatsapp que oficialmente “não existe”
“Então agora qualquer um faz o meu trabalho em cinco minutos?”
Não era exactamente isso. Mas a frase ficou a circular. E com ela, outras. “Se aquilo faz relatórios, para que precisa a empresa de nós?” “Será que a transformação de que tanto falam é substituir-nos por programas?” “Eu nem sei usar isso — e se me pedem para aprender mais uma coisa?”
O Pedro, que não imaginou a onde que ia provocar, tentou explicar no dia seguinte: A IA não fez a análise sozinha. Ele passou quarenta minutos a formular as perguntas certas, a corrigir erros no output, a acrescentar contexto que a máquina não tinha. “É como ter um assistente muito rápido e muito literal”, disse. “Faz o que lhe pedes. Só que não sabe o que é que devias pedir.“
A Cláudia, duas semanas depois, pediu ao Pedro que lhe mostrasse como funcionava. Começou devagar. Fez uma pergunta simples ao chat. Depois outra. Depois uma mais complexa. Ao fim de uma hora, disse algo que ninguém esperava: “Isto não substitui o que eu faço. Mas pode dar-me tempo para fazer as coisas que nunca tenho tempo de fazer — como pensar“.
Pensar. Num escritório onde as horas se perdem em formatações, tabelas e relatórios repetitivos, ter tempo para pensar pode ser a maior revolução de todas.
O grupo de whatsapp continua activo. mas o tom mudou. Já não se fala tanto de “substituição”. Fala-se de “como é que se faz aquilo?”, “Alguém já experimentou para relatórios mensais?”. , “O meu ainda responde em inglês quando lhes falo em português”.
Pequenos sinais. Como sempre, a mudança começa no corredor.

