A Ana tem 46 anos, uma mesa de trabalho impecavelmente organizada e um hábito que os colegas acham curioso: imprime os emails importantes. “Goste de riscar papel” diz, como se isso explicasse tudo. Talvez explique.

Há dezoito anos da organização, Ana atravessou praticamente todas as mudanças que a empresa viveu. Viu o papel dar lugar ao digital. Viu os mapas de rede desenhados à mão serem substituídos por softwares. Viu a fibra óptica chegar e com ela o vocabulário novo que foi preciso aprender: MPLS, QoS, latência, redundância. Cada vez, adaptou-se. Cada vez, levou mais tempo do que os mais novos. Cada vez, acabou por fazê-lo melhor do que muitos deles, porque trazia consigo algo que nenhum manual ensinava: contexto.

Quando os primeiros colegas começaram a usar ferramentas de inteligência artificial no trabalho — para redigir emails, para analisar dados, para criar apresentações — Ana não foi das primeiras. Mas também não foi das que viraram as costas.

“O meu primeiro instinto foi pensar: lá vem mais uma coisa para me sentir velha. O segundo instinto — e este demorou uns dias — foi pensar: e se for mais uma coisa para me tornar melhor?”

Começou pelo mais simples. Pediu a uma ferramenta de IA para resumir um relatório de 40 páginas que um fornecedor lhe enviara. O resumo chegou em trinta segundos. Estava incompleto — faltava-lhe um detalhe técnico crucial sobre as condições de SLA. Mas estava razoável. “Se fosse um estagiário, teria passado”, reconheceu. “Só que o estagiário demoraria três horas.”

Depois experimentou algo mais arriscado: pediu ao chat que lhe sugerisse perguntas para uma reunião com um cliente do sector bancário. A IA devolveu sete perguntas. Quatro eram genéricas. Duas eram boas. Uma era brilhante — uma pergunta sobre interoperabilidade de sistemas que Ana não teria formulado sozinha, mas que, ao lê-la, reconheceu imediatamente como a pergunta certa.



O que faz de Ana  um caso interessante não é a sua facilidade tecnológica — é exactamente o contrário. É a sua capacidade de olhar para uma ferramenta nova com honestidade: sem o deslumbramento dos entusiastas, mas também sem o terror dos resistentes.

Há colegas que têm medo”, diz, baixando a voz como se partilhasse um segredo que toda a gente conhece. “Medo de serem substituídos. Medo de não conseguirem aprender. Medo de ficarem para trás. Eu percebo esse medo. Senti-o quando apareceram os primeiros sistemas de gestão de rede que eu não compreendia. Mas aprendi uma coisa nessa altura: o medo só paralisa quando não se faz nada.

E o que é que ela faz? “Experimento. Todos os dias, reservo vinte minutos para experimentar. Faço uma pergunta à IA sobre algo que já sei a resposta — para ver como ela responde. Faço uma pergunta sobre algo que não sei — para ver se a resposta me abre uma porta. Às vezes funciona. Às vezes não. Mas os vinte minutos nunca são perdidos.”

Pergunto-lhe o que é que a IA não consegue fazer que ela faz. Ri-se. “Tudo o que envolve olhar uma pessoa nos olhos. Perceber que um cliente está descontente antes de ele o dizer. Sentir que um colega está esgotado só pela forma como entra na sala. Decidir que um número num relatório não faz sentido, não porque o cálculo esteja errado, mas porque o contexto é outro. Isto nenhuma máquina faz. E sinceramente, não quero que faça. Porque se fizer, aí sim fico sem emprego.”

Faz uma pausa. Depois acrescenta, quase como nota de rodapé: “E outra coisa: a máquina não imprime emails. Portanto, nesse aspecto, estamos em pé de igualdade.”

Tem graça. E tem razão.

Segundo a KPMG, 52% dos trabalhadores a nível global receiam que a IA elimine os seus empregos. Quase um terço admite estar a sabotar activamente a estratégia de IA da sua empresa. O fenómeno já tem nome: FOBO — Fear of Becoming Obsolete. Na MSTelcom, a transformação em curso exige atenção a este sentimento — não para o ignorar, mas para o transformar em curiosidade.

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